O tradicional O Cata Livros de Campina Grande, considerado o primeiro e mais antigo sebo em atividade na Rainha da Borborema, comemorou 40 anos de fundação no último dia 26 de março, consolidando-se como um dos mais importantes empreendimentos culturais e comerciais voltados à compra, venda e troca de livros novos e usados, revistas, discos e outros materiais impressos da cidade.

Instalado há 30 anos na Praça Clementino Procópio, no Centro de Campina Grande, o estabelecimento tornou-se ao longo do tempo uma referência para leitores, estudantes, professores, pesquisadores, colecionadores e intelectuais que buscam desde obras raras até títulos de circulação mais popular.
Em meio à dinâmica acelerada do comércio central, O Cata Livros preserva uma função que vai além da atividade mercantil: mantém em circulação livros fora de catálogo, edições esgotadas e exemplares que dificilmente seriam encontrados em livrarias convencionais, contribuindo para a democratização do acesso ao conhecimento e para a preservação da memória editorial.
O empreendimento teve início com o professor e escritor Inácio de Loiola, que fundou o sebo ainda na década de 1980. Posteriormente, o espaço passou a ser administrado pelo livreiro Ronaldo Roberto de Andrade, responsável por ampliar a atuação do local e consolidá-lo como ponto tradicional da cultura campinense.
Antes de se fixar na Praça Clementino Procópio, O Cata Livros funcionou em outros endereços da cidade. Um dos mais lembrados foi um boxe na área interna do antigo Terminal Rodoviário Cristiano Lauritzen(Rodoviária Velha), onde durante vários anos serviu de ponto de encontro para leitores e estudantes em busca de livros usados e publicações de difícil acesso.
Atualmente, o acervo reúne obras de autores campinenses, de outras cidades da Paraíba, de outros estados e outros países. Além de coleções antigas, revistas históricas, discos e títulos da literatura infantojuvenil. A variedade faz com que o local atenda desde leitores ocasionais até pesquisadores e colecionadores que procuram exemplares específicos.
CONVIVÊNCIA INTELECTUAL
Ao longo de seus 40 anos de funcionamento, O Cata Livros também se consolidou como um espaço de convivência e intercâmbio intelectual em Campina Grande.

O local é frequentado por professores universitários, estudantes das redes pública e privada, pesquisadores e leitores assíduos, além de nomes expressivos da cena cultural, intelectual e política campinense. Entre os frequentadores estão a professora e fundadora do Festival de Inverno de Campina Grande, Eneida Agra Maracajá; o advogado e atual presidente da Academia de Letras de Campina Grande, Thélio Farias; o escritor e compositor Bráulio Tavares; o jornalista José Nêumanne Pinto; arquiteto e poeta Jesssier Quirino, o ex-prefeito Félix Araújo; e o vereador Olímpio Oliveira, entre outros expoentes da vida pública local.
Ao longo de sua trajetória, O Cata Livros também recebeu a presença de personalidades saudosas que ajudaram a construir a história política, literária e jornalística da Paraíba e de Campina Grande, a exemplo do ex-governador, poeta e escritor Ronaldo Cunha Lima e do jornalista, escritor e historiador Josué Silvestre, ambos já falecidos, mas que fizeram do sebo uma parada frequente em suas agendas intelectuais.
Aos sábados, o movimento costuma ser ainda maior, transformando o sebo em ponto de encontro de intelectuais, escritores e leitores que aproveitam o espaço para conversar sobre literatura, política, história e assuntos ligados à vida cultural da cidade.
Essa característica fez com que O Cata Livros deixasse de ser apenas um comércio de livros usados para assumir também a condição de ambiente de sociabilidade cultural.
Livro físico mantém força, diz livreiro
De acordo com Ronaldo Roberto de Andrade, o avanço das mídias sociais e das novas tecnologias não reduziu a procura por livros impressos como muitos imaginavam. Segundo ele, nos últimos anos houve um crescimento no interesse por exemplares físicos, inclusive entre leitores jovens.

O livreiro avalia que a facilidade da informação digital acabou despertando em muitas pessoas a necessidade de uma experiência de leitura mais concreta e concentrada.
“Percebemos um aumento de leitores procurando o livro físico. Muitos querem ter o contato direto com a obra, folhear, guardar, colecionar. O livro não perdeu sua importância”, destacou.
Ao resumir a relação afetiva entre leitor e obra impressa, Ronaldo define:
“O livro físico tem cheiro e gosto de eternidade”.
Para ele, essa permanência ajuda a explicar a resistência do mercado de livros usados e a continuidade de espaços como O Cata Livros, mesmo diante do acelerado avanço e transformações tecnológicas.
LEGADO CULTURAL E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA
Ao completar 40 anos, O Cata Livros reafirma sua importância não apenas como atividade comercial, mas como instrumento de preservação da memória cultural e editorial de Campina Grande.
Em suas prateleiras circulam livros que passam de mão em mão, títulos que voltam a despertar interesse décadas depois de lançados e obras que ajudam a manter viva a relação da cidade com a leitura.

Em um tempo marcado pela rapidez das telas, o velho sebo da Praça Clementino Procópio continua lembrando que certos conhecimentos não envelhecem — apenas ganham novas leituras.
E talvez seja justamente essa a principal herança construída pelo Cata Livros ao longo de quatro décadas: provar que, entre páginas usadas e histórias acumuladas, a cultura também encontra formas silenciosas de permanecer.
*BOA NOTÍCIA PB, A INFORMAÇÃO QUE FAZ BEM!