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Estudos revelam quem realmente está adotando a inteligência artificial

A inteligência artificial já está transformando o mundo do trabalho, mas a forma como esse processo vem sendo retratado muitas vezes é confusa, fora de contexto ou usada para alimentar cenários alarmistas pouco prováveis.

Um exemplo é um estudo da Microsoft Research, divulgado em julho, que analisou em quais funções a IA poderia ser mais útil — e não onde ela já está sendo adotada. Ainda assim, o levantamento foi interpretado por muitos como um ranking das profissões mais ameaçadas. Historiadores, por exemplo, apareceram em segundo lugar, o que gerou reações e leituras equivocadas.

Somente agora pesquisadores começam a reunir dados mais sólidos sobre quem, de fato, está usando IA no dia a dia do trabalho. E os resultados indicam que a revolução ocorre de forma desigual, em “bolsões”, mais do que de maneira ampla dentro das organizações.

Em muitas empresas, há um descompasso claro entre quem mais poderia se beneficiar da IA e quem realmente a utiliza. Embora seja comum afirmar que profissionais mais experientes teriam melhores condições de extrair valor da tecnologia — por saberem formular boas perguntas e identificar erros —, eles não são, necessariamente, os que estão embarcando no “bonde da IA”.

Um estudo da Workhelix, startup de consultoria especializada no impacto da IA no trabalho, analisou uma empresa farmacêutica com mais de 50 mil funcionários. O resultado surpreendeu: os maiores usuários de IA eram, disparadamente, os estagiários.

Para o CEO da Workhelix, James Milin, a principal variável não é o cargo nem a idade, mas a disposição para experimentar. Segundo ele, a idade é um indicador falho: há jovens resistentes à IA e que, inclusive, atuam para dificultar sua adoção dentro das empresas.

Além dos estagiários, cientistas de pesquisa e desenvolvimento também se destacaram no uso da tecnologia — um comportamento esperado em carreiras que historicamente dependem da rápida incorporação de novas ferramentas.

Esse padrão se repete em praticamente todas as empresas analisadas. O cenário abre espaço para que startups, formadas por profissionais mais abertos à experimentação, ultrapassem grandes organizações mais lentas, como já ocorreu em ondas tecnológicas anteriores. Dentro das empresas, aqueles que mais poderiam se beneficiar da IA tendem a precisar de mais incentivo, formação e orientação.

O paradoxo de Solow ainda resiste

Pesquisas da consultoria McKinsey mostram que a adoção da IA segue em ritmo lento. No relatório mais recente, dois terços das empresas ainda estão apenas na fase de testes. Apenas uma em cada 20 pode ser considerada de “alto desempenho”, com a IA profundamente integrada e responsável por mais de 5% do lucro.

Para Michael Chui, senior fellow da McKinsey, o principal gargalo não é o acesso à tecnologia, mas a dificuldade de mudar fluxos de trabalho inteiros, que envolvem múltiplas pessoas e áreas. Como resumiram pesquisadores da MIT Sloan Management Review, o obstáculo à automação total não é técnico, mas humano, legal e cultural.

Essa realidade remete ao chamado Paradoxo de Solow, formulado nos anos 1980, quando computadores começaram a se espalhar pelos escritórios sem gerar ganhos imediatos de produtividade. O aprendizado histórico é claro: tecnologia, sozinha, não transforma organizações. É preciso tempo, reorganização de processos e liderança.

Quando a liderança puxa o movimento

A experiência da empresa LogicMonitor ilustra esse ponto. Ao decidir apostar fortemente em IA generativa, a companhia não apenas ofereceu acesso ao ChatGPT Enterprise, como também estabeleceu uma diretriz clara da alta liderança para que todos experimentassem a tecnologia.

O resultado foi expressivo: 96% dos funcionários passaram a testar IA, e mais de 1.600 chatbots personalizados foram criados para tarefas que vão de vendas a contratos jurídicos. Um em cada oito desses bots foi desenvolvido por líderes seniores, reforçando o engajamento “de cima para baixo”.

Curiosamente, um grupo de engenheiros em início de carreira, baseado na Índia, liderou a adoção. Agora, a empresa busca estimular profissionais mais experientes, especialmente nos Estados Unidos, a avançar no uso da tecnologia.

Segundo a Microsoft Research, as funções com maior potencial de aplicação da IA envolvem pesquisa e escrita — áreas que já enfrentam temores de disrupção e perda de empregos. No entanto, muitos desses campos são justamente os que ainda adotam a tecnologia de forma tímida.

Os próprios autores do estudo reforçaram que o objetivo nunca foi prever demissões, mas identificar onde a IA poderia ser mais útil. A mensagem central é clara: a maioria das pessoas, na maioria das profissões, mal começou a usar IA.

Hoje, os usuários mais entusiasmados estão entre os profissionais em início de carreira, pressionados a se tornarem mais produtivos e competitivos. Ainda assim, líderes e organizações precisam aprender com esses pioneiros.

No fim das contas, a resistência à IA tende a ter prazo de validade. Como já se repete nos corredores corporativos: a IA talvez não tire seu emprego — mas alguém que saiba usá-la pode tirar. O mesmo vale para as empresas.

*Da Redação do BOA NOTÍCIA PB com informações do PORTAL IVEST NEWS