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Jornal Nacional distorce crise na Venezuela e omite contexto ao acusar repressão a jornalistas

Há dois dias consecutivos, o Jornal Nacional tem acusado o governo venezuelano de impedir o trabalho de jornalistas estrangeiros que tentam cobrir os acontecimentos no país após o ataque das Forças Armadas dos Estados Unidos, ocorrido na madrugada do dia 3. Na ocasião, segundo o governo venezuelano, houve o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, além da morte de ao menos cem pessoas.

Para sustentar a narrativa, a Globo deslocou a repórter Carolina Cimenti, diretamente de Nova Iorque, para a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela. Nas reportagens, ela entrevista jornalistas estrangeiros que afirmam não conseguir entrar no país para exercer a profissão.

De acordo com a repórter, na segunda-feira, 14 jornalistas teriam sido detidos em Caracas pelas autoridades venezuelanas. Posteriormente, quase todos foram liberados, com exceção de um profissional que teria sido deportado. Ainda segundo a reportagem, o sindicato da categoria informou que equipamentos, celulares, redes sociais e históricos de mensagens desses jornalistas teriam sido inspecionados pela polícia.

A “cabeça” da reportagem e o enquadramento editorial

Na edição mais recente do Jornal Nacional, o apresentador César Tralli abriu a reportagem afirmando:

“Desde a captura de Nicolás Maduro, a ditadura chavista intensificou a repressão impedindo o trabalho de jornalistas estrangeiros.”

A escolha das palavras chama atenção. Não se trata de “captura”, mas de sequestro do presidente eleito da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, por ação das Forças Armadas dos Estados Unidos, sob ordens do então presidente Donald Trump.

Além disso, a classificação do regime venezuelano como “ditadura chavista” ignora a existência de um sistema de democracia popular, baseado em ampla participação social organizada em comunas. Esse modelo foi, inclusive, detalhado pelo próprio Maduro em entrevista concedida ao jornalista Ignacio Ramonet poucas horas antes de ser sequestrado.

O que a reportagem não explicou

A matéria também afirma que a Venezuela vem despencando no ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras e relembra um episódio de 2010, quando o então presidente Hugo Chávez teria mandado prender o dono de um canal de TV crítico ao governo.

O Jornal Nacional, no entanto, não explica o motivo da prisão. O empresário citado é Guillermo Zuloaga, detido em 25 de março de 2010, no Aeroporto de Falcón, quando tentava deixar o país para evitar responder a um processo judicial. Ele era acusado de divulgar informações falsas, afirmando que o presidente Chávez teria ordenado disparos contra manifestantes — acusação posteriormente desmentida pelas investigações oficiais.

À época, o deputado Manuel Villalba, presidente da Comissão de Meios de Comunicação do Congresso venezuelano, declarou à BBC Brasil que os responsáveis pelos assassinatos já haviam sido identificados e presos, e que Zuloaga não poderia usar a condição de proprietário de um meio de comunicação para se eximir das responsabilidades previstas no Código Penal do país.

O ponto ignorado: visto de trabalho

O aspecto mais omitido nas reportagens é o motivo concreto pelo qual muitos jornalistas estrangeiros não conseguem atuar na Venezuela: a ausência de visto de trabalho. Sem esse documento, eles sequer podem ingressar legalmente no país para exercer a profissão.

Trata-se de uma exigência comum. No Brasil, estrangeiros precisam de visto específico para atuar como jornalistas. O mesmo ocorre nos Estados Unidos, onde a própria Carolina Cimenti trabalha — ou alguém acredita que ela exerça a profissão sem visto de entrada e autorização laboral?

Ainda assim, jornalistas chegam à fronteira entre Colômbia e Venezuela sem a documentação exigida e, ao terem a entrada negada, o fato é apresentado como censura ou repressão à imprensa.

Dois pesos, duas medidas

Curiosamente, o Jornal Nacional não adota o mesmo rigor quando o assunto é Israel. O país proibiu a entrada de jornalistas — estrangeiros e israelenses — na Faixa de Gaza, permitindo acesso apenas sob escolta e controle das Forças Armadas israelenses.

Além disso, Israel é responsável pela maior morte de jornalistas em conflitos contemporâneos, conforme dados amplamente divulgados por organizações internacionais e veículos como a Agência Brasil. Esse dado, no entanto, não ganha destaque no principal telejornal do país.

O silêncio sobre Gaza contrasta com o tom enfático adotado nas reportagens sobre a Venezuela, revelando um tratamento desigual e um enquadramento editorial que levanta questionamentos sobre o compromisso com a contextualização e a pluralidade dos fatos.

*Da Redação do BOA NOTÍCIA PB com informações da AGÊNCIA BRASIL

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